quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

+soma

tem quadrinho meu na revista +soma desse mês!
e ainda: rafael sica, nik neves, e entrevista com robert crumb.

clique na imagem para baixar gratuitamente.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

vida acadêmica

(...) A mão mais rápida que os olhos, o que os olhos não vêem nem os ouvidos ouvem o coração não sente. O montador é o prestidigitador que distrai a platéia com uma das mãos na assistente enquanto a outra puxa o coelho da cartola. Montar é organizar e desorganizar o tempo. Saber a hora de cortar e de estender o momento. É deixar claro que o filme não passa de um filme, ou iludir o espectador com cortes invisíveis e raccords perfeitos. O bom montador é um compositor que sabe a hora das pausas, que percebe e trabalha a harmonia, espacial, e a melodia temporal do filme. Montagem é ritmo. É saber a hora do tango, da valsa, do forrobodó. É determinar intenções, acrescentando ou suprimindo um levantar de sobrancelhas, uma respiração, uma hesitação do personagem ou do próprio ambiente. É saber perceber as coincidências, as semelhanças, ecos e tonalidades de planos diferentes, preparar o espectador para algo que ainda está por vir, lembrar o espectador do que já veio, mentir descaradamente, suspender tensões, trapacear. (...) Também é experimentar, desrespeitar a lógica, saber dar chance ao acaso e à coincidência, reconhecer boas idéias no erro. É fazer associações estapafúrdias. Sintetizar sentidos ocultos. Tirar leite de pedra. Às vezes montar é repetir. Às vezes montar é repetir. Às vezes montar é repetir. Às vezes montar é quase repetir, mas um pouco diferente. É puxar a atenção para o que interessa, mesmo que não seja o óbvio. Montar é hipnotizar. Esconder e mostrar. Montar é rimar. Ou bagunçar, jogar a merda no ventilador. Ser açougueiro, e cirurgião plástico nas horas vagas. É deixar para a imaginação do espectador o espaço entre os quadros. Tirar o tempo morto, poupar a paciência, inventar elipses. Mover-se no tempo. Mover-se a tempo. É deixar o filme com a duração necessária, o comercial com os 30 segundos aceitáveis no intervalo do jornal. É desapegar-se do que não funciona. É perseguir um sentimento a qualquer custo. Criar verdades a partir de mentiras, e vice-versa. É como aquele filme ruim baseado numa idéia boa, em que o Robin Williams é o editor do chip das memórias dos mortos, e transforma vilões em heróis para o filme do velório. Montar é cortar a hora em que o noivo cutuca o nariz e a noiva tropeça. É reduzir o discurso do padrinho bêbado e pular logo para a piada do final. É guardar o melhor para o final. Montar é dominar o cavalo mas deixá-lo comer uma graminha de vez em quando. É obsessivo e trabalhoso. Demora. Pelo menos com o advento dos computadores as possibilidades tornaram-se realmente infinitas. Mas eles não tomam decisões por ninguém, ainda bem. Por um lado, democratizaram o acesso às ferramentas de edição - por outro, qualquer dia explodem entupindo o planeta de filmagens caseiras de youtube e pornografia barata. Aí era uma vez um montador. Ou vários. Montar é escolher a ordem dos ingredientes, dosar a quantidade, adaptando a receita, que é o roteiro. É juntar as peças do quebra-cabeça. Seja com cutelo, guilhotina, bisturi, estilete, alicate, ou até mesmo a marretadas. É amarrar as pontas e o nó do cadarço para o filme não tropeçar. Os russos brincaram a valer com a montagem. Eles não tinham computador nem bomba atômica. Também não tinham mandado nenhum cachorro para o espaço. Hoje em dia, cachorros são o de menos. As ameaças espaciais alienígenas estão em alta, na verdade sempre estiveram - até quando o negócio era o rádio e os locutores ainda não tinham dirigido filme nenhum. Os extraterrestres e os terroristas, que compraram as bombas atômicas desativadas dos russos. Mas isso não nos interessa porque os dois só atacam os Estados Unidos, ainda bem. Pelo menos eles têm os efeitos especiais para se defender de qualquer ameaça. Montar é organizar as idéias, mesmo que de forma caótica. É encher o papo da galinha de grão em grão. É segurar o suspense da última cena, logo que o filho bastardo da protagonista descobre que o pai é o padeiro careca do outro canal, para segurar a audiência angustiada até o próximo capítulo. É fazer uma pessoa conversar com a outra ao telefone, alternando o plano do rosto de cada um, e tornar isto plausível e aceitável, mesmo que seja engano. É fazer o público acreditar que o Steven Seagal realmente é um exímio bailarino e o Fred Astaire faixa preta em artes marciais tailandesas. Ou que os caras do CQC sejam mesmo engraçados. Fumaça e espelhos. O velho truque da mulher-gorila Monga. Talvez mais sutil, mas não menos enganador. Que o digam os telejornais, de preferência com o semblante sério e pesado como uma âncora, música triste ao fundo. Boa noite. Corta para o comercial. A Fátima errou a entrada, o Bonner olhou para a câmera errada, quem sabe faz ao vivo, agora só na retrospectiva de fim de ano. É o cúmulo do absurdo. “Isto é uma vergonha”, já diria o Boris com aquele narigão, olhos nos olhos, sem titubear. A vida é só um intervalo entre um jornal e outro, um capítulo da novela e outro, uma partida do campeonato e outra. Mas elipse só quando a gente dorme, e se sonhar já era. Mentira, quando se fica de porre também. E é aí que acontecem as reviravoltas imprevisíveis do enredo. Puxando pra comédia ou pra tragédia, quem sabe. Dizem que antes de morrer a nossa vida passa diante dos olhos em um segundo. Isto é que é síntese, a montagem mais objetiva do mundo, sem direito a replay nem super câmera lenta. Aí sobem os créditos. É isso, montar também é saber encher lingüiça com estilo. Pelo menos tem dado certo pra muita gente. Concluímos, portanto, que a montagem coloca cada coisa no seu devido lugar. Obrigado.

---------------------------------------------------------




O primeiro, ensaio sobre montagem. O segundo, panfletagem sobre as eztetykas de Glauber Rocha.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

lançamento

Sábado agora é o lançamento oficial do Pindura 2010 em Brasília!
Garanta o seu!

E em breve, lançamento no Rio.

cartaz por Caio Gomez

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

higiene pessoal

Impressão Digital, 2009.

Pôster com tiragem limitadíssima de 2 exemplares.
Garanta o seu neste domingo.

Também estarão à venda os modelos feitos pelos colegas Lafa, Arruda e Elcerdo.
Além de exclusivos ímãs de geladeira Beleléu.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

manual de instruções

Como você irá perceber, o aparato para contagem dos dias do ano tm desta vez é semanal, o que significa que será preciso a atenção e colaboração do leitor para virar as páginas com destreza, ao fim de cada período de sete dias. Foram incluídas, ainda, as fases da lua e os feriados nacionais, para alegria dos plantadores de batata e enforcadores de semana ocasionais. O aparato para contagem dos dias do ano tm deve ser utilizado da seguinte maneira: comece pelo começo, vá até o fim e tudo dá certo.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

halloween / dia de los muertos

estarei em brasília de 31 de outubro a 3 de novembro.

encomendas de beleléu pelo gmail: stevzstevz

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

slide

idéia para música nova.

não tenho conseguido me dedicar muito a isso, espero que em breve volte.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

na academia brasileira de letras

quadrinhos à máxima potência
Desenhos e textos de Alex Vieira, Allan Sieber, André Dahmer, Andrei Duarte, Arnaldo Branco, Caio Gomez, Chiquinha, Daniel Lafayette, Eduardo Arruda, Fábio Lyra, Fábio Zimbres, Gregorio Marangoni, Igor Machado, Laerte Coutinho, Leonardo, Leonardo Pascoal, LTG, Pablo Mayer, Rafael Polon, Rafael Sica, Stêvz, Tiago Lacerda
a exposição oubapo faz parte do evento
de 21 a 30 de outubro de 2009

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

belo horizonte

chego em BH amanhã de manhã, para promover a revista Beleléu. quem estiver por lá, compareça ao Festival Internacional de Quadrinhos, no Palácio das Artes!

e amanhã mesmo rola o Baile das Revistas Dependentes (Prego, Quase, Tarja Preta, Samba e Macaco) – dia 08/10 (quinta-feira) às 22h n’A Obra (R. Rio Grande do Norte, 1168, Savassi). Shows com Grupo Porco de GrindCore Interpretativo, Quebraqueixo, DJ Matias Mad Maxxx e DJ LeoPyrata, revista grátis para os pagantes, R$10,00.

aguardem uma possível aparição do Excêntrico Jerônimo Johnson Homem-Banda.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

para quem estiver em brasília


o pessoal da samba está lançando revistas novas por aí!
procurem direito que vocês acham um quadrinho meu numa delas.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

novidades


Vem aí revista nova, com Eduardo Arruda, Daniel Lafayette e Tiago Elcerdo.
Lançamento previsto para o FIQ (6 a 12 de outubro), em Belo Horizonte.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

juba

Dente mole em rapadura, tanto morde até que fura. E rapadura pura legítima não pode ter mistura, já dizia o barbeiro velhinho, com seus tremeliques experientes, de tesoura na mão, picotando as pontas dos cabelos de sansão. "Enfim, um desafio", foi a sua constatação, logo que entrei. "Hoje chove", foi a minha. O outro comentava as manchetes do jornal. O chão quadriculado foi sumindo, debaixo das madeixas infinitas, e já era mesmo hora de despejar os piolhos inadimplentes. Valha-me a navalha na nuca: feito o pé e aparada a barbaridade da cara de bobo, espanadas as sobras e varridos os restos para debaixo do tapete, me apresento ao camarada apresentável no espelho, confiro se as duas orelhas ainda estão lá, jogo os trocados amassados na cadeira, aperto a mão trêmula do barbeiro prometendo retorno em seis meses, quando acabar-se a validade do corte, abano as calças e a camisa e vou-me embora decidido a comprar um chapéu dois números menor, com a merreca da economia de xampu.

sábado, 5 de setembro de 2009

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

domingo, 30 de agosto de 2009

terça-feira, 25 de agosto de 2009

sábado, 22 de agosto de 2009

jornal


matéria que saiu no correio braziliense de ontem:

Com projetos engatilhados e muitos em fase de finalização, quadrinistas da cidade começam a ter reconhecimento

» PEDRO BRANDT

--A produção nacional de história em quadrinhos autorais vai bem, obrigado. Muitos podem dizer que a situação de hoje em dia não se compara com a vivida em outras décadas — quando mais autores publicavam gibis para muito mais leitores. Mas é perceptível uma considerável retomada de fôlego de uns anos para cá. Em Brasília, a produção de HQs é sazonal, mas tem se mostrado contínua e rendido não só títulos surpreendentes, mas, principalmente, revelado grandes talentos.
--Muitos deles já estão com os novos trabalhos prontos ou em estágio avançado de finalização. O desenhista Gabriel Góes é talvez o nome mais conhecido dos quadrinhos brasilienses fora da cidade. Com o roteirista carioca Arnaldo Branco (criador do impagável Capitão Presença), Góes ilustrou a adaptação de O beijo no asfalto, de Nelson Rodrigues, publicada em 2007. “Já estamos negociando com a editora Nova Fronteira uma outra adaptação de um livro do escritor”, conta o desenhista — que prefere manter mistério sobre qual obra será levada para as HQs desta vez.
--Mas Gabriel já adianta os próximos planos da Samba, revista lançada em parceria com os quadrinistas Lucas Gehre e Gabriel Mesquita, em novembro passado, e que alcançou boa repercussão nacional. “A Samba número 1 era mais uma vitrine do nosso trabalho. Agora o conceito está mais amarrado. A ideia é fazer dela um selo. Os primeiros gibis serão o Kowalski,
meu, e mais três do Lucas, batizados de Amarelo, Laranja e Vermelho”. Nas palavras de Gabriel, Kowalski aborda assuntos pertinentes, contemporâneos, como drogas, dançarinas exóticas e suicídios. “Ah, e tem ainda uma fotonovela no meio”, emenda.
--Este mês, Felipe Sobreiro teve uma de suas histórias selecionadas pelo site Zudacomics, da editora americana DC Comics (casa de Batman, Superman, Mulher-Maravilha…). “Eu e meu pai continuamos fazendo propostas pra Heavy Metal. Mês que vem ou outubro vai sair uma historia desenhada por ele e colorida por mim, já aprovada por eles”. Nestablo Ramos Neto tem dois álbuns prontos desde o ano passado esperando para serem publicados pela editora HQM. “Com a crise, eles tiveram que dar uma segurada em todos os lançamentos. Agora as coisas estão voltando a andar e eles já estão reagendando tudo. Creio que para este semestre tá saindo”, comemora.
--Revelados pela surpreendente revista Bongolê Bangoró [sic], Gomez e Stevz também estão com novidades. Enquanto o primeiro produz sua própria revista, a Pimba! (prevista para 2010), o segundo prepara para este semestre a Beleléu, parceria com três quadrinistas cariocas. O ilustrador Kleber Sales procura interessados em publicar na íntegra sua adaptação para Os miseráveis, de Victor Hugo. O primeiro episódio acabou de sair na revista coletiva Ragu. Designer brasiliense radicado em São Paulo, Mário César lançou em julho, pelo coletivo Quarto Mundo, sua Entre quadros, a estreia individual.
--Autor dos livros Esfolando ouvidos e Grosseria refinada e vocalista da banda de hardcore Quebraqueixo, Evandro Vieira convidou desenhistas da cidade para ilustrar HQs inspiradas nas letras de suas músicas. O resultado será apresentado aos leitores em 2010. “Como já temos um bom material, eu e o baixista da banda vamos reunir essas histórias e bancar uma revista de 16 ou 20 páginas para levar para o Festival Internacional de Quadrinhos, o FIQ”, conta. O evento será realizado em outubro, em Belo Horizonte. “Os independentes têm dado visibilidade aos quadrinhos. Vi isso acontecer com vários artistas franceses, nos anos 1980 e 1990. Começaram no underground e hoje são nomes superconhecidos”, contextualiza Roberto Ribeiro, um dos curadores do FIQ.
--Tanto a Samba, quando o calendário Pendura [sic] (com desenhos de 12 ilustradores da cidade) concorreram ao prêmio HQ Mix, o principal dos quadrinhos no Brasil (e cuja cerimônia de entrega é hoje, na capital paulista). Nenhuma das produções candangas conseguiu o troféu, mas isso não significa desânimo. “Os interesses estão voltados para as HQs alternativas, independentes. Daqui pra frente, com os nossos próximos lançamentos, acho que vai ser mais legal. As pessoas vão ver que estamos continuando”, reflete Gabriel Góes. Em um cenário ainda incipiente, paciência e perseverança são virtudes essenciais.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

20ago09-quinta

os vizinhos se encontram no elevador
apresentam-se
dão bom dia uns aos outros
apertam o botão do seu andar
evitam cruzar o olhar
e depois batem na porta da gente reclamando da infiltração no banheiro que acontece de cair bem em cima dos vasos de plantas
que, regadas todos os dias, estão mais vivas e fortes do que nunca

o cacto
no meio da sala de jantar
espinhudo
espinhento
seco seco
desértico
lembra a gente que a água é o menor dos nossos problemas

o chinelo é o biquini do pé

o mar é o correio dos náufragos

a importante das palavras ordem é

a fumaça é o fantasma do cigarro

o relâmpago é a idéia da nuvem

o acento é a lâmpada da idéia

a música é a pausa do silêncio

o guarda-chuva é a bengala de vestido

era um proctologista cheio de dedos

a dentadura sorria no copo

a solidão é sempre maior que a encomenda

a morte, coitada,
não é malvada não
é funcionária pública burocrata
que tem de fazer relatório e bater o cartão
no final do expediente
e quando está de férias ou no cafezinho
também dá uma folga pra gente

gato e sapato sem prato nem rato

os vizinhos moram dentro da janela

a buzina buzina

bibi
fonfón
bebé

pulou do prédio

stravinsky

a 500 pés lembrou do pára-quedas

terça-feira, 18 de agosto de 2009

quarta-feira, 22 de julho de 2009

+soma

tem quadrinho meu na revista +soma 12.

e ainda: entrevista com andré dahmer, e hqs de gabriel renner, alex vieira e chico félix — além de muito mais coisa boa.

baixe a revista na íntegra AQUI

quinta-feira, 25 de junho de 2009

what the?


exercício de montagem que consistia em fazer um curta de 3 minutos com trechos de 9 filmes diferentes

sábado, 20 de junho de 2009

pick-pocket


cara-o-quê?

...As letrinhas na tela passam mais depressa do que eu esperava, mas não importa, sei os versos de cor, só não entendo o que diabos a foto dos alpes suíços faz lá no fundo, seguida pelas bahamas e dançarinas de hula-hula, como num álbum de fotografias de viagens internacionais que nunca farei. Dane-se, fecho os olhos e solto a voz, que só aparece nessa hora, reverberando pelas paredes pelas mesas e até na calçada lá fora, na canção mais velha do que eu, do que todos nós, cortando o ar incoerente dessa noite.
...As mulheres gritam, garrafas se quebram, mesas tombam, eu devo estar sendo mesmo um sucesso com esse microfone e o copo na mão, o colarinho aberto, e tão embriagado de sucesso que mal percebo a briga que já toma conta de metade do salão. Dois panacas bêbados se socam desajeitadamente, um cantou desafinado a mulher do outro, o público gira ao redor, esquivando-se, apostando, torcendo, vaiando, todos dançam conforme a dança e a canção que eu canto, e não paro, só paro quando ela acabar, paguei a ficha e é esse o meu direito. Um deles levanta uma cadeira, é o auge da batalha, justamente no refrão, me empenho nos agudos, lá vem, os garçons tentam apartar os combatentes dançarinos, seguro a nota lá no alto, chega a polícia, a sirene em contraponto, a música quase no fim, canto o último verso já algemado junto aos outros, aplaudido de pé pelo delegado que aproveita a confusão para fugir sem pagar a conta.

terça-feira, 19 de maio de 2009

sexta-feira, 8 de maio de 2009

cotidianus domesticus

Acordo com o canto das buzinas de automóvel, alimento as plantas, rego o gato e troco a areia do peixe. Meu ecossistema funciona como um relógio suíço, eliminadas as partes sobressalentes e dando-se corda ao contrário, naturalmente. Passo o café e as cuecas, penduro a conta no varal e preparo a minha própria comida, algo digno de estudos por parte da NASA e que qualquer dia ainda vai dar na pedra filosofal ou num cálculo renal de brinde. Arredonda-se para baixo, noves fora o cafezinho, e vamos do topo da cadeia alimentar para o trono de direito, que tudo o que sobe desce, o que entra sai, e é pela obra que se conhece o autor. Cantamos parabéns ontem — eu, o gato, o peixe e as plantas — para o frango no congelador, que está fazendo aniversário, e apesar de não botar ovos de ouro pelo menos não incomoda ninguém. À esta altura já deve pensar que é mesmo um pingüim de geladeira.

domingo, 3 de maio de 2009

retorno

...Apertando o passo para não passar aperto, cruzo a avenida agora vazia, cortando caminho por ruelas e becos imaginários, onde os assaltantes nos dão presentes de aniversário e os postes cospem notas de cem. Corro para alcançar o ônibus errado, que para a um quilômetro do ponto vazio. O motorista é dublê de cobrador, ou vice-versa, vai saber: manobrando com uma mão só, tira do bolso o troco exato, em moedas de cinco centavos, para a garoupa graúda em extinção — genial, além de tudo ainda são gênios da matemática.
...Sento-me ao fundo, único passageiro e testemunha do chofer solitário, que me conduz quase tão suavemente quanto uma britadeira pelas ruas desertas. O maldito corre como um louco, minha bexiga se contrai ainda mais, na esperança de esvaziar-se logo. O ônibus pula a cada irregularidade da pista, eu quicando no último banco como uma bola de tênis hiperativa num trampolim no meio de um terremoto japonês, cada vez mais alto. Me seguro como posso, com as mãos os pés e os dentes, tentando antecipar os saltos, mantendo os joelhos flexionados para não cair da sela do touro mecânico indomável.
...Me penduro na cordinha, o piloto passa do ponto mais uma vez. Grito para chamar-lhe a atenção: aí sim, freia tão brusca e subitamente, que atravesso voando o corredor, numa trajetória perfeita que cruza a roleta e termina no pára-brisa, esborrachado tal qual um inseto. Ding! Supa-Dupa-Mega-Combo, mil pontos para mim, a bola do pinball.
...Amaldiçôo o motorista e trato de dar o fora dali, atrás da primeira árvore que vir pela frente. Alivio-me enfim, regando as raízes de um poste qualquer. Vou-me embora assoviando, as mãos nos bolsos, e merda! perdi o telefone dela.

love scene

sexta-feira, 1 de maio de 2009

mudos imóveis

Mudou-se, foi dividir um apartamento com ela. Ficavam assim: ele com o quarto e o banheiro, ela com a sala, entretendo as visitas. Mas o relacionamento foi se complicando, problemas de comunicação. Ela não calava nunca a boca, além de não saber ouvir. Ele mal começava a contar sobre o seu dia, ela despejava o preço do dólar, a alta na cotação do petróleo, o pênalti roubado, o escândalo do senado, a receita de pato assado e o adultério da zona sul. Ele começou a chegar tarde, quando chegava. Quase não se viam, embora ainda lembrasse dela com certa melancolia nos botecos e nas salas de espera, às vezes nas lojas de eletrodomésticos. Numa dessas, conheceu a outra: trocou a televisão por uma geladeira, quinze prestações mais nova.

cartão-postal

domingo, 19 de abril de 2009

beleza pouca é bobagem

...Voltamos ao vivo do planeta Terra, onde dentro de instantes iremos conhecer a próxima Miss Ser Humano deste século. Mas antes, a última candidata finalista: Esperança no palco e na passarela, pesando noventa toneladas — e mesmo assim mais leve que uma pluma —, medindo 15 centímetros de altura, 184 de busto, 32 de cintura, um quilômetro de quadril e meio metro de sorriso, ela é só simpatia e carisma. Formada em Educação Física Quântica pela Universidade do Sri Lanka, seus hobbies são derreter calotas polares e comer casquinhas de siri. Pretende descobrir a cura do câncer de dedão e o sentido da vida, assim que os porcos criarem asas na Malásia. Preenche um biquíni como ninguém e sabe a tabuada e a raiz quadrada da dívida externa de cor e salteado. Mantém o senso de humor bronzeado e radiante como uma bomba atômica de domingo e não está para brincadeira, decidida a vencer custe o que custar, ainda mais de barba feita.
...Os jurados consultam os astros pelo telescópio, a audiência pelos binóculos e a consciência no microscópio eletrônico de varredura. Os apostadores, à postos na platéia, apostam alto: o páreo é duro, apesar de Esperança ter matado todas as outras concorrentes. A campeã do mês passado já removeu cirurgicamente a coroa de espinhos, conformada, se prepara para passar a faixa de Gaza e o cinturão de peso morto sem cair do salto. A torcida delira com os anúncios dos patrocinadores, Esperança sapateia sobre os cadáveres das oponentes e assovia chupando manga e fumando cigarro sem filtro. Os jurados resolvem decidir no palitinho. Esperança roda a Bolsa de Valores debaixo do poste. A platéia aplaude a placa de aplauso, emocionada com o espetáculo — e com dois meses de atraso lá vem o envelope lacrado com o resultado e a conta de luz, senhoras e senhores: a grande vencedora você fica sabendo depois dos comerciais.

domingo, 12 de abril de 2009

urca


---------------------------------------------------------------------------

CARTÃO-POSTAL :

Caríssimos(as),

até aqui tudo bem, tratei logo de arrumar moradia, alugando uma espaçosa e confortável caixa de papelão num bairro muito bem localizado. A vizinhança é agradável e educada, além de ser adubada pelo menos doze vezes ao dia, para que os belos canteiros e jardins das praças possam florescer assim tão vistosos. Há também fartura de bitucas, das mais finas marcas nacionais e importadas, disponíveis a qualquer hora, ao alcance das mãos. Ah, ia me esquecendo: a caixa que me aquece na verdade era de refrigerador. Irônico, não?

terça-feira, 7 de abril de 2009

6.

...Atchô! Hoje o meu nariz está disfarçado de torneira, gotejando e fungando a cada fôlego. Fuón! Devo estar enriquecendo as fábricas de lenços do país, não há dúvida: talvez seja uma boa hora para investir no mercado de ações.
...Pensando bem, é melhor ter cautela. Nada de riscos desmedidos, a advertência era claríssima — se ao menos não fosse aquele gato maldito brincando com a minha alergia... o que alguém pode ver num bicho desses?
...Vamos, gracinha. Mas que obra magnífica! Muito bem, a dieta deve estar funcionando, vou recomendar os serviços da nutricionista. Eu sei que você acha que caviar é uma ova, não se compara ao filé mignon, mas é para o seu próprio bem, meu amor. Agora vamos recolher esta belezura, para não poluir ainda mais a cidade, como estes indigentes sem-vergonha por aí.
...Hoje em dia não há mais sossego na vizinhança, graças a esse bando de desocupados imundos e mal-educados, usufruindo de graça das fontes e bancos de praça que pagamos com os nossos impostos. Já não se pode nem mesmo passear com o cachorro sem quase tropeçar num deles na primeira esquina. Aonde estão a polícia, a prefeitura, o presidente, as organizações não-governamentais? Os cidadãos de bem estão ficando acuados; a minha pobre cadelinha já andava com prisão de ventre, constipada, coitada.
...E eu aqui assoando o nariz em fá maior até agora — afinadíssima, por sinal —, alérgica à atual conjuntura, engulo logo uma cartela de comprimidos para ver se passa. O poodle apressa o passo, fantasiado de cão-guia, desviando dos obstáculos — as árvores e os mendigos, árvores e mendigos, mendigos e árvores. Decido voltar pela praia, o calçadão contorcendo-se sob os meus pés, os coqueiros dançando hula-hula e uivando para a lua, os banhistas de escafandro à prova de balas. É sem dúvida o quarteirão mais longo e peculiar que já percorri em todos esses anos — para piorar a situação, começa a chuviscar e esqueci a sombrinha.
...Cérbero abana os três rabos. Chegamos, sãs e salvas, eu e a cachorrinha: sem pestanejar, o porteiro abre prontamente os portões do prédio, deseja boa noite, se oferece para carregar as sacolas e chama o elevador da cobertura.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

8.

...Dariz endubido é voda. Quando chove é que o bicho pega quem corre e molha o cavalinho de quem fica marcando bobeira: eu que o diga, ensopado até os ossos moles e roídos, debaixo dos pés de guarda-chuva fora de época — torcendo para os raios caírem lá longe, que nunca fui vacinado e vai que a corrente elétrica, na falta de fusível, queima o meu único parafuso solto e ainda por cima sem porca nem cofrinho, que à essa altura já deve estar saindo da fábrica de salsichas siamesas e virando cachorro-quente na chapa de qualquer carrocinha.
...Pior que não se fazem mais xaropes para resfriado como antigamente, as vovós estão ficando ultrapassadas, obsoletas desde o advento do transplante de soluço e dos conselhos instantâneos de microondas — mas, de qualquer forma, ainda tossem e torcem o bigode entre um suéter tricotado e outro. Já eu, sem suéter nem xarope nem conselho nem soluço, aproveitei o vento poluído noroeste e a enxurrada das poças na rua para velejar o meu barquinho de papelão e ver se pescava algum par de botas em bom estado em qualquer boca-de-lobo-do-mar banguela.
...Infelizmente a empreitada terminou de forma trágica, ao passar a minha baleia nêmesis branca, fantasiada de transporte coletivo — de barriga cheia e levantando uma tremenda onda tsunami sem precedentes que virou o barco e me pôs de ponta-cabeça, tal qual os pedestres, que à esta altura já eram mergulhadores, atropelados pelos automóveis, que por sua vez eram submarinos amarelos: justo eu que nunca soube nadar e de salva-vidas mal salvo a minha própria.
...Os ratos, ingratos, foram os primeiros a abandonar o navio. Fui atrás como quem não quer nada, náufrago, perdido numa ilha deserta mais perdida ainda, no meio do nada mais cheio de que se tem notícia, contemplando a baía lá do topo do cartão-postal: enquanto deixava crescer a barba, descobri a rota de fuga pelo teleférico panorâmico que me trouxe de carona, dependurado de volta ao lar, doce lar, no quarto banco da praça, entre os pombos e as baratas, queimando de febre e tremendo de frio, sem canja de galinha nem termômetro debaixo do braço ou em qualquer outra cavidade ou orifício propriamente dito: a boca por exemplo, que no máximo segura o fantasma de um cigarro que me aquece o nariz e suas respectivas narinas, mais congestionadas que o trânsito à esta hora do progresso da civilização.

terça-feira, 31 de março de 2009

diegese

...Acordei e ainda estava aqui, disfarçado de mim mesmo — o que é pior — com o espelho e a consciência por testemunhas, os óculos de míope astigmata apoiados no nariz, a barriga com um umbigo no meio. Mas amanhã mesmo acabo com esta farsa: engulo o frasco de vitaminas, arranco este bigode e estes dentes tortos que teimam em falar por mim o tempo inteiro, pelos cotovelos e pelas cáries, fazendo planos de cruzar o canal da mancha e as pontes de safena antes que os ambientalistas operem as cataratas do niágara e não se possa mais pular lá de cima num barril, numa canoa ou num transatlântico com bóia de pato.
...Banguela para que não me reconheçam mais em catástrofe ou multidão nenhuma, seja de chapéu, capa-de-chuva, óculos, bigode ou nariz postiço — o sorriso amarelo na identidade falsa de raio-x — saio de fininho do consultório sem pagar a conta, de broca e espelhinho nas mãos, as revistas de fofoca do século passado debaixo do braço, antes de ser fisgado pelo sugador de baba da assistente do dentista que, à esta altura deve estar soltando gases hilariantes e pedindo educadamente que eu diga trinta e três.
...Instaladas a dentadura e a coragem, compro uma luneta ou binóculos de longo alcance, corro pro ponto do ônibus espacial e me mando daqui para os anéis de saturno, na esquina da via láctea com os frutos do mar — aproveitando que nunca fui alérgico — pra recomeçar do zero à esquerda numa outra encarnação.

domingo, 29 de março de 2009

história de pescador pra boi dormir enquanto a vaca tosse

...Ela bota a gota d'água no feijão na panela velha que faz comida boa, passa os legumes da frigideira para o fogo que hoje tem visita das que descascam o abacaxi e torcem o pepino desde pequeno: Boa de garfo, que não dá colher de chá.
..."É melhor pegar logo a faca de dois gumes e depenar a galinha dos ovos de ouro, pra não ficar chorando sobre o leite derramado depois, que farinha do mesmo saco vazio não para em pé e em boca fechada não entra mosca nem vingança fria de sobremesa."
...Juntando a fome com a vontade de comer, o apressado de olho maior que a barriga mal lava uma mão na outra e já dá com a língua nos dentes, comendo cru e quente. E dá-lhe pimenta nos olhos dos outros, que pra acalmar os ânimos só uma tempestadezinha em copo d'água, que ninguém é de ferro e espeto de pau torto nunca se endireita.
...Caviar é uma ova, engolindo sapo por lebre nem se percebe o ingrediente secreto: chuchu beleza com chumbinho, assim assado. Fazer o quê? Caiu na rede é filho de peixe, peixinho é.